Ding, dong, ding, dong, ding, dong,
Ding, dong, ding, dong, ding, dong.
As doze badaladas da meia-noite
Anunciam o homem do lixo.
De colete florescente e luvas calçadas,
De galochas de borracha e calças remendadas,
O corajoso trabalhador inicia
A sua tarefa diária.
Embora considerada por muitos
como porca e nojenta,
Esta é bem necessária.
E enquanto ele se apresenta,
Do outro lado da rua
Onde estão os contentores,
Fecha o café, Maria,
A empregada de balcão,
Que depois varre o chão
Da entrada da casa “Faria”.
Ela chama-o com o dedo
E ele avança sem medo,
Pois já está habituado
A estes encontros de pecado.
E é aí então no breu
Que se dão início os amores,
Entre a Julieta Maria e o Tomás Romeu.
No beco escuro do bairro pacato,
Julieta despe devagar o fato,
Ao seu Romeu “afortunato”. (como dizem os italianos)
Os dejectos do esgoto transformam-se em Channel nº 5,
As baratas do estrume transformam-se em cupidos do amor,
As esfregonas e vassouras transformam-se em tochas havaianas,
O contentor transforma-se em cama de dossel
Os sacos pretos do lixo transformam-se em almofadas de seda italiana,
As codeas de pizza que o gato selvagem come transformam-se em caviar,
A urina do cão transforma-se em vinho de bordéus,
E naquele ninho de amor,
Eles gemem em prazer
Até ao amanhecer,
Porque quando este chega,
Maria vai ver da sua filha,
E Tomás aperta a braguilha
E regressa ao trabalho,
Sempre na esperança
Que o próximo rebento de Maria
Tenha sido fruto do romance dos dois
E não filho do Manel da pizzeria.
Mas isso é um assunto que não é desta história
E que fica para depois.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Poema Boémio
Bebe vinho, come pão,
Vai à taberna, nunca digas não
Ao chouriço, mesmo que ele esteja no chão,
Ao pé do cão mestiço ou pendurado no varão.
Vai à puta, aproveita o quanto quiseres
Enquanto podes e tens,
Porque quando não tiveres dois vinténs
Para comer com decência e talheres,
Nem tiveres paciência para colher malmequeres
Para dar ao teu pai acamado,
É que verás que a vida é um triste fado,
Sem surpresas nem sinas
Onde já não vais às meninas
E és um desgraçado.
Não sejas mal agradecido,
Não tens culpa de ser mal nascido,
Pois teu pai deixou tantos bastardos
Como tu filhos pardos
Das pretas e brasileiras
Que fornicaste sem maneiras.
Não peças piedade
À mãe que, de boa vontade,
Te criou e educou,
E que tiraste da sala de estar
E despejaste no lar
Mais imundo da cidade.
E quando estiveres na rua deitado,
Moribundo e mijado,
Sem te conseguires levantar,
De estares tão cansado
Desta vida mundana,
Pecadora e profana,
É que te vais lembrar do conselho que te dei:
Come o chouriço e não te armes em rei,
Procura um emprego decente
E ganha para a sopa quente,
Casa com uma mulher de bom porte
E tenta aí a tua sorte.
E conta esta moral ao teu filho,
Antes de lhe encheres o papo de milho,
E assim ele saberá o que custa viver
E que tudo tem uma razão de ser.
Lembra-te disto meu nabo:
As coisas não chegam de mão beijada,
Pois quem limpa o rabo,
Fica sempre com a mão cagada.
Vai à taberna, nunca digas não
Ao chouriço, mesmo que ele esteja no chão,
Ao pé do cão mestiço ou pendurado no varão.
Vai à puta, aproveita o quanto quiseres
Enquanto podes e tens,
Porque quando não tiveres dois vinténs
Para comer com decência e talheres,
Nem tiveres paciência para colher malmequeres
Para dar ao teu pai acamado,
É que verás que a vida é um triste fado,
Sem surpresas nem sinas
Onde já não vais às meninas
E és um desgraçado.
Não sejas mal agradecido,
Não tens culpa de ser mal nascido,
Pois teu pai deixou tantos bastardos
Como tu filhos pardos
Das pretas e brasileiras
Que fornicaste sem maneiras.
Não peças piedade
À mãe que, de boa vontade,
Te criou e educou,
E que tiraste da sala de estar
E despejaste no lar
Mais imundo da cidade.
E quando estiveres na rua deitado,
Moribundo e mijado,
Sem te conseguires levantar,
De estares tão cansado
Desta vida mundana,
Pecadora e profana,
É que te vais lembrar do conselho que te dei:
Come o chouriço e não te armes em rei,
Procura um emprego decente
E ganha para a sopa quente,
Casa com uma mulher de bom porte
E tenta aí a tua sorte.
E conta esta moral ao teu filho,
Antes de lhe encheres o papo de milho,
E assim ele saberá o que custa viver
E que tudo tem uma razão de ser.
Lembra-te disto meu nabo:
As coisas não chegam de mão beijada,
Pois quem limpa o rabo,
Fica sempre com a mão cagada.
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