segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Recital

Vamos ver se conseguimos fazer uma história ridícula em seis minutos.
Sala de concertos. Recital de quarteto de cordas. Hoje há Mozart e Schubert. O quarteto entra em palco. Violino à esquerda (ou à direita, consoante   o ponto de vista), outro violino a seguir, viola e a fechar o violoncelo. Os músicos sentam-se após um curto aplauso da platéia. O primeiro violino olha para os outros como um general para o seu exército. A postos... E quando se preparam para começar a tocar, qual poderá ser a coisa mais bizarra a acontecer? Podia passar uma manada de zebras pelo palco, mas isso é muito previsível. Ou então... Ou então pode entrar em palco um homem com uma tuba. O homem, gordo, entra perante uma platéia estupefacta e um quarteto divido entre o espanto e o embaraço. Silencio gélido. Até que o primeiro violino pergunta: "Deseja alguma coisa?"
E o homem responde: "Eu gostaria de tocar convosco."
(riso geral da platéia)
"Mas, mas... Eu conheço-o sequer?"
"Penso que não, não nos conhecemos..."
"Então o que pensa que faz aqui? Nós estamos prestes a iniciar o recital. Um recital de QUARTETO DE CORDAS!"
"Não faz mal. Comecem a tocar que eu acompanho."
"Mas, mas, mas... Mas Mozart não escreveu nada para tuba!"
"Não se preocupem. Eu faço POM POM POM enquanto vocês tocam o que está escrito... Marco o compasso, percebem?"
"Mas o senhor está doido!"
"Mau... Não me comece a insultar... Eu até agora tenho sido bastante cordial consigo..."
"Cordial!? Então Vossa Excelência lembrou-se de vir para aqui, sem mais nem menos, porque lhe apetecia tocar, e nem pensou que o público que hoje está aqui presente pagou bilhete para ouvir música de câmara e que nós estamos a trabalhar!"
"Pois, isso não sei... O que eu desejo é apenas tocar um pouco... Por isso, se não se importam vou começar."
(A platéia divertida e admirada assiste àquele espectáculo incrível enquanto o homem gordo mete a boca na tuba e de lá retira uma série de POM POM POM...)
O primeiro violino aí perde as estribeiras e atira-se ao gordo descarado enquanto este continua com POM POM POM.
Aproveitando a escaramuça, o violoncelo, que já tinha assuntos pendentes com o viola por causa de uma flautista, começa a morder-lhe a perna esquerda, enquanto que este defende-se dando com o arco do instrumento na cabeça do atacante.
O segundo violino, que toda a vida tinha tocado à sombra ou a terceiras a baixo do primeiro violino, vê aqui a sua oportunidade e começa o solo da "Méditation" de Massenet.
Os espectadores entusiasmam-se e começam a gritar e a apostar em quem sairá vitorioso.
No meio da confusão passa uma manada de zebras pelo palco.

sábado, 26 de março de 2011

A Casa do Mariconço

É numa rua bizarra
A casa do Mariconço
Tem na sala um gato persa
Que se chama Zeca Afonso.

Vive com muitos amigos
Aquele de quem vos falo
Gosta de brincar a cavalo
E aos putos chama-lhes figos.
É doido por um rapazola,
Como um castiço pelo fado,
Se vê na rua o musculado
De comovido até exclama:
“Venha comigo para cama,
Seu bonitolas safado”.

Para se tornar notado
Usa coisas esquisitas,
Muitas rendas, muitas fitas
E um lenço ao pescoço encarnado.
Pretendido e desejado
Anda sempre com ar sonso
E atrás dele o Zeca Afonso
Como um escudeiro-mór
Se há festa correm o estore
Na casa do Mariconço.

É da aparência vistosa
E muito bem mobilada
Se há uns que dizem, não gosta nada,
Que a casa parece pirosa.
Há cortinados cor-de-rosa
E em casa há um moço
Que ao passar na porta eu oiço
Cantando o Mamma Mia
No sofá dorme todo o dia
O gato persa Zeca Afonso.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A Caminho da Cegonha



"Era aí pelos intróitos do S. Mateus. As chuvas outonais ainda não tinham aparecido e a estiagem do verão, que fora comprida e aspérrima, ameaçava prolongar-se indefinidamente, para flagelo das mulheres da aldeia, que se viam em palpos de aranha para obterem água suficiente às necessidades do consumo.
Os quatro poços contíguos à povoação, de há muito que estavam absolutamente secos. No fundo de todos, como que a atestar as diabruras do rapazio, amontoavam-se pedras de diferentes tamanhos, misturadas com vários fragmentos de origens diversíssimas. Mas, a respeito de amostras de água, que era o que naturalmente neles devia haver, nem sequer uma gota!
Encontravam-se sim, mas em pequeníssimas quantidades, nas fontes desviadas meia légua e mais, o que demandava um tamanhão insano para aquela gente infeliz, que forçosamente tinha de vencer a pé essas distâncias grandes e incómodas, ainda mais quando percorridas três e quatro vezes por dia e noite, como acontecia ordinariamente.
Mas que remédio, senão abraçar a cruz com heróica resignação! As pobres criaturas assim o compreendiam também, e portanto resignavam-se com melhor ou pior vontade. Costumadas desde a infância a uma vida de atritos e amarguras, arrostavam pacientemente com mais esse sacrifício, que de resto era apenas uma sombra de outros cem vezes maiores, que se lhe deparavam a cada passo, na senda dolorosa da sua humilde existência. Todavia, lá de longe em longe, o desfalecimento anuviava-lhes o espírito, e então maldiziam o seu triste fadário, invectivando os protegidos da fortuna, que não sabiam o que era sofrer.
Mas esses desabafos não passavam de fraquezas momentâneas, que se esvaiam como fumo. Porque, afinal, as jornadas ao poço, a par de muitas canseiras e fadigas, concorriam, igualmente, para uns certos atractivos que compensavam menos mal aquelas marchas violentas. Eram um ensejo esplêndido para as caminhantes narrarem umas às outras o que ocorria na paróquia, desde a coscuvilhice rasteira e banal, até às imoralidades de sensação escutadas com avidez pelas gulosas do escândalo. E o ensejo aproveitava-se sempre, não se perdendo um minuto.
Nestas circunstâncias, a população feminina andava num vai-vem constante a caminho da «Cegonha» - uma nascente bem reles, mas a melhor das imediações, principalmente quanto à qualidade da água, que se asseveravam ser óptima. Até se dizia que o Santos, mestre de letras, que viera de Campo Maior sofrendo atrozmente da bexiga, depois que bebera da Cegonha, nunca mais importunara o Dr. Vicetto com a maçada gratuita da introdução da algália. (...)"
José da Silva Picão - grande homem, escritor e lavrador. Ja está na altura de se fazer uma reedição desta fantástica novela regionalista que é "A Caminho da Cegonha", bem como de "Através dos Campos" que já escasseia nos alfarrabistas...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Noite transfigurada

O que mais nos interessava era o Campo. Mas não o campo lavrado, alentejano e tolo, esse era bonito, sem dúvida; mas nós queríamos o campo que só em sonhos, em contos de fadas ou na colina do Castelo de Neuchwanstein existia. E aí víamos Lohengrin transformar-se em cisne e Elsa chorar. Víamos Isolda deitada sobre o corpo imóvel e ausente de Tristão. Víamos as orgias de Luís II da Baviera com os seus lacaios e víamos Wagner. Muito Wagner víamos nós nessas ilusões.
E sentíamos na pele, ou à flor dela, o comovente desenlace que qualquer sonho de romantismo fizesse.
Não, não! Nós não queríamos uma coisa pirosa, nada de fútil ou superficial. Nós queríamos paixão desmesurada, vontade libidinal. Nós queríamos ver o Reno! ou La Mer…
Queríamos a vaga, a onda, a loucura. Queríamos chorar por tão bela visão. Queríamos imolar-nos ali.
Acontece sempre isto: acaba a época de caça e dá-nos para nostalgia e sentimentalismos que, não querendo, são pirosos à mesma.

Voltem as lebres rapidamente!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

PH da Patilha

Liga-me a Senhora
Vem de Moura, preocupada,
Minha amada distraída
Que já foi a mais vendida.

Vou tomar banho
E arranho o esquentador
A vapor, ‘tou bem lavado,
Mais puro que o rio Sado.

Faço o bigode,
Mas p’ra ode fica a patilha,
Que uma milhar quer já ter
Mas não pode mais crescer.

Escovo o cabelo
E do novelo faço linha,
Penteadinha a cachimónia
Ponho água de colónia.

Acabo a toilette
E a Lisete já fumega,
Não fosse cega a paixão
Parecia um dragão.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Fado da Raia

Quis Deus nosso entregar,
A terra de tais gentios,
Glória altiva de aquém-mar
Quando se tornaram pios.

Com um gesto corajoso
Derribaram infiéis.
Nobre e possante povo
Que expulsou todos os beis.

Oh cidade raiana,
Senhora do Alentejo,
Mostrai-vos lusitana,
Que a nação não a vejo!

Diz aos hermanos espanhóis
Que Olivença ainda é nossa.
E hão-de passar muitos sóis
Até se fazer a roça.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Stultorum infinitus est numerus

A trote!
Veja a lebre acolá!

Tac-tac-tac…

Mas depois acabou a caçada.

Bem, quando o possante D. Júlio de Saveedra Portocarrero y Montez desceu do cavalo, disse muito indignado: “O frio assustou as lebres”.
De tão estúpida que era a afirmação, nasceu uma anedota que passou a ser contada entre homens da lavoura.
E depois foram almoçar.

Não me macem!

(Stultorum infinitus est numerus - e eu sou um deles!)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Violação Sexual de Filósofos:

O Jean-Jacques Rosseau em mim e disse:
"Alexis, Toque na pille"
e eu respondi:
..."Não quero! Ijáiah para Berlin,
Não me Hobbes?"
ele disse:
Benjamim, sê Constant. Eu até Kant para ti!"
e eu respondi:
"Só se me deres Mill euros, John Stuart!"
ele furioso disse para o amigo:
"Aris, tróte neles!"
e então eu vi a Anne com Har endtre as pernas.
Mas assustei-me e fui Locke embora.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Heitor Goldschimdt

Heitor passeava na rua. Ah, o que ele andava durante a noite. Não sabem o prazer nostálgico de nada ter acontecido ainda?
Pois bem, era o que ele sentia.
Heitor passeava todas as noites pelas ruas mudas da pequena cidade em que morava. E ao andar via os candeeiros iluminarem os rasgos de parede que eram visíveis. Também via as poças de água pelo chão que se pareciam muito com prata.
Heitor adorava estes passeios em que nada ouvia nem algo dizia. Apenas o eco dos passos e as gostas que pingavam dos telhados atormentavam-lhe a memória.
E ele passeava e passeava, muito como se não mais quisesse dormir. Ah, como era triste e belo ver-lhe a figura, só e acompanhado de si, vagueava pela cidade. E muito mais de interesse não havia, pois que divertido tem isto?
Heitor era solteiro há 48 anos e escrevia o que lhe vinha à caneta para o jornal local. E era assim que vivia.
Também gostava de passar as tardes frias de Novembro, quando não chovia, na esplanada do Clube Hércules, que ficava na praça principal. E lá escrevia, pensava e fumava muito.
Tinha alguns amigos, entre parentes afastados e o Barão de Pedralva. Gostava muito de jogar bridge e de montar uma égua ruça que tinha na quinta do Barão.
De facto, Heitor não era muito invulgar, nem tinha alguma coisa que o destacasse dos restantes parvos daquela região. Mas tinha a sua piada vê-lo sentado com um cigarro ao canto da boa, de boné de tweed e botins, escrevendo mal sobre esta evasão fiscal ou aquela falcatrua do presidente da câmara.
Heitor era pessoa por nascimento e parvo por mérito. Heitor era fútil por influência e dedicado por pena alheia.
Heitor era parvo e pronto.