segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Fado da Senhora Espanhola

Vou-vos contar a história
De uma senhora pouco adorada
Que depois de falecer
À família deixou nada.

Naturalidade espanhola
Afirmava o seu busto,
Mas coitada, era tão feia
Que metia medo ao susto.

Era nova quando casou
Com quinze anos então
Contraiu matrimónio
Com D. David do Carmo Picão.

Terá sido por cegueira
Ou por dinheiro a chamar
Que o pobre D. David
Disse o “sim” no altar.

Disse o “sim” no altar
Mas depois abrandou
Porque desde a cerimónia
Ele nunca mais lhe tocou.

É certo que descendência
Nunca foi assunto importante
E como não havia actividade
Picão arranjou uma amante.

Ora dizem que a espanhola,
Apesar de ser de Badajoz,
Tinha vinte casas em Elvas
E duas na Figueira da Foz.

Sem contar com a fortuna,
Que os Picões tinham na lavoura,
Podia-se dizer que a espanhola
Era uma rica senhora.

Quando a senhora soube
Do caso que o marido tinha
Disse assim para si
“Comigo não fazem farinha!”

Quando D. David morreu
Disse: “Não há-de herdar Picão”
“Coisa nenhuma minha”
“Até à sétima geração!”

E assim perdemos tudo
O que ganharíamos com a idade:
As casas da Figueira
E o palácio da cidade.

E o pior é a ironia
Que atormenta a razão,
Pois a rua do palácio chama-se:
Isabel Maria Picão.