segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Elvas, cidade morta

Elvas, cidade morta
Elvas, cidade torta
Que terra esta
Onde qualquer sesta
Mais não é funesta
Quando se faz acordada.

E que paz ancorada
Mora na minha amada,
Singela e singular,
Tão modesta no lugar,
Mas rica no altar:
Nossa Senhora da Assunção.

Já dizia Silva Picão
Que os Campos Atravessam
Os grandes da lavoura
Que fomos outrora
Antes de Abril privar
O conforto e o lar.

Minha avó teve que pagar
Novamente a sua mobília
Antes de beber a tília
Que a criada que restava
Trouxe meio brava
Por não se ter ido embora.

E depois da devassa hora
Que foi de tanta chora
Conseguimos recuperar
O salão e o altar
Daquele Monte do Castro
Que perdeu todo o alabastro.

Ainda ficou como mastro
Aquela torre lendária
Que tanta e tão vária
Lenda quis desenvolver.
Só não há céu que deixe chover
O orgulho que antes havia.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Lenda do Cavaleiro do Estandarte

No reinado de D. Fernando,
Quando Elvas era vila,
D. Gil era alcaide-mor.
Sua filha de costume brando
Ao pai fez a mancilla
Quando ficou com amor.

Ela gostava de um cavaleiro
Que era mancebo sem nobreza
E que o pai não aprovava.
Assim o alcaide matreiro
Pôs uma dura proeza
A ver se a filha não casava.

Disse então com toda a sanha:
“A boda só é realizada”
“Se me trouxeres uma bandeira.”
Estava ela lá em Espanha
Desde que tinha sido roubada
Quando mediam a jeira.

Foi por uma estreita foz
A correr na sua montada
O cavaleiro de arte.
Chegou então a Badajoz
Quando era noite cerrada
E trouxe o tal estandarte.

Ao chegar à cidade raiana
Viu o castelo fechado
Porque o alcaide assim o quis.
Com a bandeira lusitana
Contornou por todo o lado
As muralhas de D. Diniz.

Com os espanhóis à sua beira
Alvejado ali ficou
Sem que antes e com brama,
Atirasse pelas muralhas a bandeira.
E ainda suspirou:
“Morra o homem e deixa a fama”

sábado, 6 de novembro de 2010

P´ra quê discutir com o Verde?

O Verde diz que a raça não melhora,
Que a vida piora por causa do toiro.
E diz que não é arte, é pecado,
Que o toiro, coitado, devia acabar.

O Verde diz que a tourada tem cerveja,
É contra a igreja, é contra o amor,
Que a corrida à portuguesa, democrata,
É uma arte barata sem nenhum valor.

Vamos acabar com a tourada,
O Verde não gosta, não gosta nada.
Só diz que o animal é que perde,
P´ra quê discutir com o Verde?

O Verde diz que a raça do toiro bravo
Nunca está a salvo, perde na tourada.
O cavaleiro devia ser montado
E o pobre forcado devia morrer.

O Verde diz que é caro o que se paga
E que a arte brava não tem que comer,
E o toiro lusitano, já maçado,
Podia com o fado também desaparecer.

domingo, 26 de setembro de 2010

D. Paio Peres Picão

D. Paio Peres Picão
Era um senhor bem formado,
Que andava sempre trajado
Em qualquer ocasião.

Não era barão de além-mar
Nem era marquês de não-sei-d’onde
Mas todos lhe chamavam conde
Pois ninguém podia duvidar.

Não fosse já Portugal
Um belo reino de alguém,
Passaria D. Paio muito bem
Como monarca nacional.

Tinha uma grande pança
E um bigode nacionalista,
Se não desse tanto na vista
Por ter vindo lá de França.

Todos os dias o mesmo senhor
Passava as tardes com D. Caetano
No café “Alentejano”
Que antes tinha mais esplendor.

Após ver se estava bom céu,
Iam D. Paio e sua Pança
Contentes por tal bonança
À retrosaria do judeu.

O senhor Candeias
Era um modesto comerciante
Mas muito rico falante
Da herança que tinha nas veias.

Conta-se que numa visita
De D. Paio ao judeu maçado,
Queixou-se que era exagerado
O preço a pagar por uma fita.


O judeu zangado de se maçar
Disse que D. Picão não era justiceiro
Pois se tinha tanto dinheiro
Devia era gastar.

O homem não tinha intenção
De esbanjar dessa maneira
Se durante uma vida inteira
Tinha guardado meio-rei e tostão.

Respondeu então com autoridade
O judeu já sem paciência:
“Se não quer gastar, Eminência
Devia dar o dinheiro à caridade.”

Achando ridícula a graçola,
Disse que: “nada se deve dispor,
Porque o padre compra licor
Quando dou dinheiro na esmola.”

Já não podendo ver, nem ouvir,
D. Paio Peres Picão
Apertou-lhe a mão
E convidou-o a sair.

Disse este judeu que se prima:
“Se D. Picão não quer gastar
Nem aos mendigos doar,
Meta o dinheiro pelo cú acima.”

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Fado da Senhora Espanhola

Vou-vos contar a história
De uma senhora pouco adorada
Que depois de falecer
À família deixou nada.

Naturalidade espanhola
Afirmava o seu busto,
Mas coitada, era tão feia
Que metia medo ao susto.

Era nova quando casou
Com quinze anos então
Contraiu matrimónio
Com D. David do Carmo Picão.

Terá sido por cegueira
Ou por dinheiro a chamar
Que o pobre D. David
Disse o “sim” no altar.

Disse o “sim” no altar
Mas depois abrandou
Porque desde a cerimónia
Ele nunca mais lhe tocou.

É certo que descendência
Nunca foi assunto importante
E como não havia actividade
Picão arranjou uma amante.

Ora dizem que a espanhola,
Apesar de ser de Badajoz,
Tinha vinte casas em Elvas
E duas na Figueira da Foz.

Sem contar com a fortuna,
Que os Picões tinham na lavoura,
Podia-se dizer que a espanhola
Era uma rica senhora.

Quando a senhora soube
Do caso que o marido tinha
Disse assim para si
“Comigo não fazem farinha!”

Quando D. David morreu
Disse: “Não há-de herdar Picão”
“Coisa nenhuma minha”
“Até à sétima geração!”

E assim perdemos tudo
O que ganharíamos com a idade:
As casas da Figueira
E o palácio da cidade.

E o pior é a ironia
Que atormenta a razão,
Pois a rua do palácio chama-se:
Isabel Maria Picão.

domingo, 20 de junho de 2010

Fado

O Romance da Rua d'Alcamim

Ao andar pela cidade
Acompanhado da mocidade
Só vejo uma camponesa.
É uma menina tão singela,
Com um cãozinho na trela
Apregoando sua beleza.

E ao descobrir tal graçola
Tiro logo a cartola,
Ai meu Deus, mas que mulher!
Ela cheia de vaidade,
Diz sem simplicidade,
Faço tudo o que quiser.

Eu já estava tão contente,
Que nem vi o presidente
Passar por perto de mim,
Só via a camponesa
Que parecia uma princesa
Na Rua de Alcamim.

Dizem que é mulher de má-vida
E dela ninguém se olvida,
Acho que se chama Andreia.
Não quero me afligir,
Ao poder contaminar,
Ou apanhar gonorreia.

E se pensam que a história
Está apenas na memória,
Questionem toda gente
Pois quem ali se encontrava
Ou apenas caminhava
Se lembra do incidente.

E ao cantar o vilancete,
Digo ao conde de Alegrete,
D. Menezes que vida cruel!
Encontrar uma menina
Formosa, delgada e fina
Mas que anda no bordel!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

(Paradoxos...)

Uma mulher na rua chora por ouvir uma música. Tolice!
Outra não faz nada da vida e por isso tem que adoecer de vez em quando.
Uns benzem-se com a mão esquerda, “Diabo!, sacrilégio!, heresia!” gritam outros.
Nietzsche dizia que o evangelho morreu na cruz.
Bem, pode ter morrido o evangelho, mas manteve-se a cruz.
Quantos crucificamos por dia?
Quantos levam com o amargo insulto, qual limão podre e bolorento atirado à cara?
Mas para quê pensar agora na hipócrita natureza humana?
Não me chateiem!
O que eu queria mesmo era um copo de vinho branco. Bucelas 2008.

Como é que vamos fazer isto?
Já fumei 17 cigarros, tenho o cinzeiro entornado,
Mas ainda não consegui pensar numa maneira de me ir de vez.
Pedir a outro?
De certeza que existem para aí muitos que gostavam de me fazer o favor,
Mas assim estes testamentos poéticos não tinham sentido, pois não?
Ai, como hei-de morrer?
(A coisa ‘tá preta - como diz o outro - muita careta p’ra engolir a transacção…)

Enforcar dá muito trabalho,
Um tiro na nuca – não tenho pontaria, ainda matava o canário,
Afogar é tão doloroso,
Morrer queimado também.
Talvez me drogue ou leve uma injecção,
Tome um comprimido, mas pelo sim, pelo não,
Morro vestido, não vá ser sepultado com um fato incinerado.
Também tinha o sonho de me atirar do alto de um prédio,
Mas tenho vertigens de me chegar à beira,
E sujava tudo lá no chão.
Coitada da porteira!

Se calhar, para não dar trabalho aos outros, morro noutro dia.
Mas morro!

Bom, vou ouvir Tom Jobim.
Pode ser que a garota de Ipanema esteja sem cuecas!

(Conclusões...)

Deprimo-me.
Em que estado vergonhoso e decadente me encontro!
Quisera ser cavaleiro, reduzo-me a aio.
Desejava ser maestro, limpo o pó do piano.
Ambicionava ser político, sirvo cafés aos deputados.
Que merda de insaciável vida.

Oh, suspiro vagamente entre os outrora verdes e plácidos vales.
Agora, mais não são que escombros cobertos com a cinza do falhanço.
A minha realidade é a antítese do meu sonho.
A minha ideia prima é a minha recordação última.
Com tudo, e mais tudo, e mais tudo, e mais tudo,
Não me apetece levantar. Somente suspirar,
O fado mórbido, a sina funesta.
E deitar-me junto a um sobreiro. Dormir a sesta.
E nunca mais acordar para vida.
Nem tentar espreguiçar.
Ah, tentar…
Para quê tentar?
Para quê tentar, se a tentativa é o primeiro passo para o fracasso?
Eu já nem me importo com os outros,
Com o que vão sofrer, pensar, chorar.
Matei-me, e depois?
O que é um tiro na cabeça ou uma corda ao pescoço
Comparados com a quantidade de tiros e cordas
Que me disparam e emaranham todos os dias?
Que importância tem agora uma pistola apontada,
Se apontadas pistolas o são todos os dias a mim?
O que é uma forca hoje, se ontem me enforcaram sete vezes?
Que se dane a vida!

Oh corvos, oh abutres!
Tenho o corpo nu à vossa espera!
Venham e dilacerem-me!
Biquem-me e rasguem-me em pedaços!
Comam-me a gelatina dos olhos e arranquem-me as unhas da carne!
Tirem-me o escalpe, abram-me o crânio!
Partam-me os ossos e torçam-me os dedos!
Levem-me de vez, senão fico com náuseas!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

(Incertezas vagas...)

O que é o crepúsculo?
O que é o desfecho?
O que é o fim ou o princípio?
O que é a peroração da vida?
Oh, meus senhores,
Não sabeis como acabarão os vossos dias?
Não vos preocupa tal incerta conclusão?
Porque, afinal, a vida resume-se a esta preocupação,
A este constante sentimento de dúvida ou conforto,
A esta ansiedade desmedida provocada pela procura de conhecimento.
Fumem os cachimbos do ópio singular que é o presente.
Porque o que é o tempo presente senão um passado recente ou um futuro eminente?
O agora não existe, existe apenas o antes e o depois.
O passado é uma irrealidade, ou alguém prova o contrário?
Ninguém o altera, ninguém o vive, ninguém o molda.
Mas o futuro, como o conhecemos, também é fixo, estático,
Pois nós é que estamos sempre em movimento
Num espaço infinito a que chamamos universo.
E quando damos conta, já não há futuro à frente,
A vida é curta, e o tabaco acaba.
E ao mesmo tempo que escrevo esta despedida,
Tenho noção que não se repetirá este momento,
Como também não se repetirá o momento em que um de vós irá ler isto,
Nem se repetirá o momento em que outros de vós escutarão isto.
E assim que nos lamentamos de termos vivido pouco tempo,
Zás! Passou.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Reflexões sobre a formação do imprevisto

A previsão de fenómenos inconstantes é uma idílica metáfora sobre a criação. O que foi a criação senão uma falácia utópica para dar resposta aos inquéritos da alma? Não é natural da mente a ideia do “nada” antes do “tudo”? Uma ideia nebulosa e confusa que desponta do crepúsculo decadente da sociedade?
Em vésperas do colapso total da Humanidade, o ópio, a cerveja e as putas são a solução mundana mais agradável antes da viagem até Hades. Caronte tem inveja, mas também fica a arder com o pagamento porque o dinheiro foi gasto nas meninas...