D. Paio Peres Picão
Era um senhor bem formado,
Que andava sempre trajado
Em qualquer ocasião.
Não era barão de além-mar
Nem era marquês de não-sei-d’onde
Mas todos lhe chamavam conde
Pois ninguém podia duvidar.
Não fosse já Portugal
Um belo reino de alguém,
Passaria D. Paio muito bem
Como monarca nacional.
Tinha uma grande pança
E um bigode nacionalista,
Se não desse tanto na vista
Por ter vindo lá de França.
Todos os dias o mesmo senhor
Passava as tardes com D. Caetano
No café “Alentejano”
Que antes tinha mais esplendor.
Após ver se estava bom céu,
Iam D. Paio e sua Pança
Contentes por tal bonança
À retrosaria do judeu.
O senhor Candeias
Era um modesto comerciante
Mas muito rico falante
Da herança que tinha nas veias.
Conta-se que numa visita
De D. Paio ao judeu maçado,
Queixou-se que era exagerado
O preço a pagar por uma fita.
O judeu zangado de se maçar
Disse que D. Picão não era justiceiro
Pois se tinha tanto dinheiro
Devia era gastar.
O homem não tinha intenção
De esbanjar dessa maneira
Se durante uma vida inteira
Tinha guardado meio-rei e tostão.
Respondeu então com autoridade
O judeu já sem paciência:
“Se não quer gastar, Eminência
Devia dar o dinheiro à caridade.”
Achando ridícula a graçola,
Disse que: “nada se deve dispor,
Porque o padre compra licor
Quando dou dinheiro na esmola.”
Já não podendo ver, nem ouvir,
D. Paio Peres Picão
Apertou-lhe a mão
E convidou-o a sair.
Disse este judeu que se prima:
“Se D. Picão não quer gastar
Nem aos mendigos doar,
Meta o dinheiro pelo cú acima.”