Uma mulher na rua chora por ouvir uma música. Tolice!
Outra não faz nada da vida e por isso tem que adoecer de vez em quando.
Uns benzem-se com a mão esquerda, “Diabo!, sacrilégio!, heresia!” gritam outros.
Nietzsche dizia que o evangelho morreu na cruz.
Bem, pode ter morrido o evangelho, mas manteve-se a cruz.
Quantos crucificamos por dia?
Quantos levam com o amargo insulto, qual limão podre e bolorento atirado à cara?
Mas para quê pensar agora na hipócrita natureza humana?
Não me chateiem!
O que eu queria mesmo era um copo de vinho branco. Bucelas 2008.
Como é que vamos fazer isto?
Já fumei 17 cigarros, tenho o cinzeiro entornado,
Mas ainda não consegui pensar numa maneira de me ir de vez.
Pedir a outro?
De certeza que existem para aí muitos que gostavam de me fazer o favor,
Mas assim estes testamentos poéticos não tinham sentido, pois não?
Ai, como hei-de morrer?
(A coisa ‘tá preta - como diz o outro - muita careta p’ra engolir a transacção…)
Enforcar dá muito trabalho,
Um tiro na nuca – não tenho pontaria, ainda matava o canário,
Afogar é tão doloroso,
Morrer queimado também.
Talvez me drogue ou leve uma injecção,
Tome um comprimido, mas pelo sim, pelo não,
Morro vestido, não vá ser sepultado com um fato incinerado.
Também tinha o sonho de me atirar do alto de um prédio,
Mas tenho vertigens de me chegar à beira,
E sujava tudo lá no chão.
Coitada da porteira!
Se calhar, para não dar trabalho aos outros, morro noutro dia.
Mas morro!
Bom, vou ouvir Tom Jobim.
Pode ser que a garota de Ipanema esteja sem cuecas!
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
(Conclusões...)
Deprimo-me.
Em que estado vergonhoso e decadente me encontro!
Quisera ser cavaleiro, reduzo-me a aio.
Desejava ser maestro, limpo o pó do piano.
Ambicionava ser político, sirvo cafés aos deputados.
Que merda de insaciável vida.
Oh, suspiro vagamente entre os outrora verdes e plácidos vales.
Agora, mais não são que escombros cobertos com a cinza do falhanço.
A minha realidade é a antítese do meu sonho.
A minha ideia prima é a minha recordação última.
Com tudo, e mais tudo, e mais tudo, e mais tudo,
Não me apetece levantar. Somente suspirar,
O fado mórbido, a sina funesta.
E deitar-me junto a um sobreiro. Dormir a sesta.
E nunca mais acordar para vida.
Nem tentar espreguiçar.
Ah, tentar…
Para quê tentar?
Para quê tentar, se a tentativa é o primeiro passo para o fracasso?
Eu já nem me importo com os outros,
Com o que vão sofrer, pensar, chorar.
Matei-me, e depois?
O que é um tiro na cabeça ou uma corda ao pescoço
Comparados com a quantidade de tiros e cordas
Que me disparam e emaranham todos os dias?
Que importância tem agora uma pistola apontada,
Se apontadas pistolas o são todos os dias a mim?
O que é uma forca hoje, se ontem me enforcaram sete vezes?
Que se dane a vida!
Oh corvos, oh abutres!
Tenho o corpo nu à vossa espera!
Venham e dilacerem-me!
Biquem-me e rasguem-me em pedaços!
Comam-me a gelatina dos olhos e arranquem-me as unhas da carne!
Tirem-me o escalpe, abram-me o crânio!
Partam-me os ossos e torçam-me os dedos!
Levem-me de vez, senão fico com náuseas!
Em que estado vergonhoso e decadente me encontro!
Quisera ser cavaleiro, reduzo-me a aio.
Desejava ser maestro, limpo o pó do piano.
Ambicionava ser político, sirvo cafés aos deputados.
Que merda de insaciável vida.
Oh, suspiro vagamente entre os outrora verdes e plácidos vales.
Agora, mais não são que escombros cobertos com a cinza do falhanço.
A minha realidade é a antítese do meu sonho.
A minha ideia prima é a minha recordação última.
Com tudo, e mais tudo, e mais tudo, e mais tudo,
Não me apetece levantar. Somente suspirar,
O fado mórbido, a sina funesta.
E deitar-me junto a um sobreiro. Dormir a sesta.
E nunca mais acordar para vida.
Nem tentar espreguiçar.
Ah, tentar…
Para quê tentar?
Para quê tentar, se a tentativa é o primeiro passo para o fracasso?
Eu já nem me importo com os outros,
Com o que vão sofrer, pensar, chorar.
Matei-me, e depois?
O que é um tiro na cabeça ou uma corda ao pescoço
Comparados com a quantidade de tiros e cordas
Que me disparam e emaranham todos os dias?
Que importância tem agora uma pistola apontada,
Se apontadas pistolas o são todos os dias a mim?
O que é uma forca hoje, se ontem me enforcaram sete vezes?
Que se dane a vida!
Oh corvos, oh abutres!
Tenho o corpo nu à vossa espera!
Venham e dilacerem-me!
Biquem-me e rasguem-me em pedaços!
Comam-me a gelatina dos olhos e arranquem-me as unhas da carne!
Tirem-me o escalpe, abram-me o crânio!
Partam-me os ossos e torçam-me os dedos!
Levem-me de vez, senão fico com náuseas!
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
(Incertezas vagas...)
O que é o crepúsculo?
O que é o desfecho?
O que é o fim ou o princípio?
O que é a peroração da vida?
Oh, meus senhores,
Não sabeis como acabarão os vossos dias?
Não vos preocupa tal incerta conclusão?
Porque, afinal, a vida resume-se a esta preocupação,
A este constante sentimento de dúvida ou conforto,
A esta ansiedade desmedida provocada pela procura de conhecimento.
Fumem os cachimbos do ópio singular que é o presente.
Porque o que é o tempo presente senão um passado recente ou um futuro eminente?
O agora não existe, existe apenas o antes e o depois.
O passado é uma irrealidade, ou alguém prova o contrário?
Ninguém o altera, ninguém o vive, ninguém o molda.
Mas o futuro, como o conhecemos, também é fixo, estático,
Pois nós é que estamos sempre em movimento
Num espaço infinito a que chamamos universo.
E quando damos conta, já não há futuro à frente,
A vida é curta, e o tabaco acaba.
E ao mesmo tempo que escrevo esta despedida,
Tenho noção que não se repetirá este momento,
Como também não se repetirá o momento em que um de vós irá ler isto,
Nem se repetirá o momento em que outros de vós escutarão isto.
E assim que nos lamentamos de termos vivido pouco tempo,
Zás! Passou.
O que é o desfecho?
O que é o fim ou o princípio?
O que é a peroração da vida?
Oh, meus senhores,
Não sabeis como acabarão os vossos dias?
Não vos preocupa tal incerta conclusão?
Porque, afinal, a vida resume-se a esta preocupação,
A este constante sentimento de dúvida ou conforto,
A esta ansiedade desmedida provocada pela procura de conhecimento.
Fumem os cachimbos do ópio singular que é o presente.
Porque o que é o tempo presente senão um passado recente ou um futuro eminente?
O agora não existe, existe apenas o antes e o depois.
O passado é uma irrealidade, ou alguém prova o contrário?
Ninguém o altera, ninguém o vive, ninguém o molda.
Mas o futuro, como o conhecemos, também é fixo, estático,
Pois nós é que estamos sempre em movimento
Num espaço infinito a que chamamos universo.
E quando damos conta, já não há futuro à frente,
A vida é curta, e o tabaco acaba.
E ao mesmo tempo que escrevo esta despedida,
Tenho noção que não se repetirá este momento,
Como também não se repetirá o momento em que um de vós irá ler isto,
Nem se repetirá o momento em que outros de vós escutarão isto.
E assim que nos lamentamos de termos vivido pouco tempo,
Zás! Passou.
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