É numa rua bizarra
A casa do Mariconço
Tem na sala um gato persa
Que se chama Zeca Afonso.
Vive com muitos amigos
Aquele de quem vos falo
Gosta de brincar a cavalo
E aos putos chama-lhes figos.
É doido por um rapazola,
Como um castiço pelo fado,
Se vê na rua o musculado
De comovido até exclama:
“Venha comigo para cama,
Seu bonitolas safado”.
Para se tornar notado
Usa coisas esquisitas,
Muitas rendas, muitas fitas
E um lenço ao pescoço encarnado.
Pretendido e desejado
Anda sempre com ar sonso
E atrás dele o Zeca Afonso
Como um escudeiro-mór
Se há festa correm o estore
Na casa do Mariconço.
É da aparência vistosa
E muito bem mobilada
Se há uns que dizem, não gosta nada,
Que a casa parece pirosa.
Há cortinados cor-de-rosa
E em casa há um moço
Que ao passar na porta eu oiço
Cantando o Mamma Mia
No sofá dorme todo o dia
O gato persa Zeca Afonso.
sábado, 26 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
A Caminho da Cegonha

"Era aí pelos intróitos do S. Mateus. As chuvas outonais ainda não tinham aparecido e a estiagem do verão, que fora comprida e aspérrima, ameaçava prolongar-se indefinidamente, para flagelo das mulheres da aldeia, que se viam em palpos de aranha para obterem água suficiente às necessidades do consumo.
Os quatro poços contíguos à povoação, de há muito que estavam absolutamente secos. No fundo de todos, como que a atestar as diabruras do rapazio, amontoavam-se pedras de diferentes tamanhos, misturadas com vários fragmentos de origens diversíssimas. Mas, a respeito de amostras de água, que era o que naturalmente neles devia haver, nem sequer uma gota!
Encontravam-se sim, mas em pequeníssimas quantidades, nas fontes desviadas meia légua e mais, o que demandava um tamanhão insano para aquela gente infeliz, que forçosamente tinha de vencer a pé essas distâncias grandes e incómodas, ainda mais quando percorridas três e quatro vezes por dia e noite, como acontecia ordinariamente.
Mas que remédio, senão abraçar a cruz com heróica resignação! As pobres criaturas assim o compreendiam também, e portanto resignavam-se com melhor ou pior vontade. Costumadas desde a infância a uma vida de atritos e amarguras, arrostavam pacientemente com mais esse sacrifício, que de resto era apenas uma sombra de outros cem vezes maiores, que se lhe deparavam a cada passo, na senda dolorosa da sua humilde existência. Todavia, lá de longe em longe, o desfalecimento anuviava-lhes o espírito, e então maldiziam o seu triste fadário, invectivando os protegidos da fortuna, que não sabiam o que era sofrer.
Mas esses desabafos não passavam de fraquezas momentâneas, que se esvaiam como fumo. Porque, afinal, as jornadas ao poço, a par de muitas canseiras e fadigas, concorriam, igualmente, para uns certos atractivos que compensavam menos mal aquelas marchas violentas. Eram um ensejo esplêndido para as caminhantes narrarem umas às outras o que ocorria na paróquia, desde a coscuvilhice rasteira e banal, até às imoralidades de sensação escutadas com avidez pelas gulosas do escândalo. E o ensejo aproveitava-se sempre, não se perdendo um minuto.
Nestas circunstâncias, a população feminina andava num vai-vem constante a caminho da «Cegonha» - uma nascente bem reles, mas a melhor das imediações, principalmente quanto à qualidade da água, que se asseveravam ser óptima. Até se dizia que o Santos, mestre de letras, que viera de Campo Maior sofrendo atrozmente da bexiga, depois que bebera da Cegonha, nunca mais importunara o Dr. Vicetto com a maçada gratuita da introdução da algália. (...)"
José da Silva Picão - grande homem, escritor e lavrador. Ja está na altura de se fazer uma reedição desta fantástica novela regionalista que é "A Caminho da Cegonha", bem como de "Através dos Campos" que já escasseia nos alfarrabistas...
sexta-feira, 11 de março de 2011
Noite transfigurada
O que mais nos interessava era o Campo. Mas não o campo lavrado, alentejano e tolo, esse era bonito, sem dúvida; mas nós queríamos o campo que só em sonhos, em contos de fadas ou na colina do Castelo de Neuchwanstein existia. E aí víamos Lohengrin transformar-se em cisne e Elsa chorar. Víamos Isolda deitada sobre o corpo imóvel e ausente de Tristão. Víamos as orgias de Luís II da Baviera com os seus lacaios e víamos Wagner. Muito Wagner víamos nós nessas ilusões.
E sentíamos na pele, ou à flor dela, o comovente desenlace que qualquer sonho de romantismo fizesse.
Não, não! Nós não queríamos uma coisa pirosa, nada de fútil ou superficial. Nós queríamos paixão desmesurada, vontade libidinal. Nós queríamos ver o Reno! ou La Mer…
Queríamos a vaga, a onda, a loucura. Queríamos chorar por tão bela visão. Queríamos imolar-nos ali.
Acontece sempre isto: acaba a época de caça e dá-nos para nostalgia e sentimentalismos que, não querendo, são pirosos à mesma.
Voltem as lebres rapidamente!
E sentíamos na pele, ou à flor dela, o comovente desenlace que qualquer sonho de romantismo fizesse.
Não, não! Nós não queríamos uma coisa pirosa, nada de fútil ou superficial. Nós queríamos paixão desmesurada, vontade libidinal. Nós queríamos ver o Reno! ou La Mer…
Queríamos a vaga, a onda, a loucura. Queríamos chorar por tão bela visão. Queríamos imolar-nos ali.
Acontece sempre isto: acaba a época de caça e dá-nos para nostalgia e sentimentalismos que, não querendo, são pirosos à mesma.
Voltem as lebres rapidamente!
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